Perante Trump, a reabilitação de Nixon

Democrata que comanda processo de impeachment conclui que abuso de poder do atual presidente dos EUA supera em grande escala o praticado por ex-presidente que renunciou ao cargo.

Fiona Hill, depois de testemunhar no inquérito de impeachment de Trump, em 21 de novembro de 2019 Loren Elliott/Reuters O deputado democrata Adam Schiff, que preside o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes dos EUA, por onde passaram 12 testemunhas em cinco dias de audiências públicas, encerrou essa fase do processo de impeachment com um recado definitivo aos republicanos: o abuso de poder praticado pelo presidente Donald Trump é claro e numa escala mais significativa do que o escândalo de Watergate, que acabou levando à renúncia de Richard Nixon, em 1974.

Entenda o processo de impeachment de Trump, quem testemunhou e o que pode acontecer nas próximas semanas Schiff corroborou o paralelo traçado dias antes pela presidente da Câmara, Nancy Pelosi, para quem o ex-presidente americano demonstrou mais apreço ao país, ao deixar o cargo antes de sofrer impeachment. “O que estamos vendo aqui é muito mais sério que um roubo de terceira classe na sede do Partido Democrata”, resumiu o deputado, num esforço hercúleo para convencer os congressistas do partido do presidente a votarem no impeachment. Exaustivos depoimentos ajudaram os democratas do Comitê de Inteligência a traçar uma clara base -- a de que Trump pôs seus interesses pessoais acima dos EUA e abusou do poder para pressionar a Ucrânia a investigar o ex-vice-presidente Joe Biden e o filho Hunter.

Os democratas estão convencidos de que ainda havia uma contrapartida: em troca do anúncio da investigação da empresa de energia Burisma, onde o filho de Biden ocupava um cargo no conselho, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, seria recebido por Trump na Casa Branca e veria liberada a ajuda militar de US$ 400 milhões (R$ 1,67 bilhão, na cotação atual). No depoimento mais demolidor, o embaixador dos EUA na União Europeia (UE), Gordon Sondland, revelou uma orientação expressa do presidente para que seguisse as ordens de seu advogado, Rudy Giuliani, no que ele assegura ser um “toma lá, dá cá”.

E mais: apontou outros funcionários do alto escalão no circuito.

Entre os nomeados pelo embaixador na UE, estavam o vice-presidente Mike Pence, o secretário de Estado, Mike Pompeo e o chefe de Gabinete da Casa Branca, Mick Mulvaney.

Outras testemunhas desabonaram a conduta do presidente e de seu advogado pessoal.

Ex-conselheira sobre Rússia da Casa Branca, Fiona Hill considerou a pressão pela investigação a Biden como uma missão doméstica que destoava dos objetivos da política externa americana.

Nada tinha a ver com a campanha de combate à corrupção na Ucrânia alardeada pelo presidente.

Trump minimizou o esforço dos deputados republicanos para defendê-lo e usou a já conhecida tática de desacreditar pelas redes sociais quem é tachado de inimigo -- no caso, as testemunhas.

O presidente preferiu, por exemplo, distanciar-se de Sondland, empresário do ramo hoteleiro que doou US$ 1 milhão à sua campanha.

Atacou a ex-embaixadora Marie Yovanovitch, depreciando sua atuação nos países em que serviu, enquanto ela ainda respondia às perguntas dos congressistas.

Condecorado pela atuação na Guerra do Iraque e principal especialista em Ucrânia do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, o tenente Alexander Vindman sofreu bullying de republicanos por estar de uniforme militar.

E foi chamado de “never trumper” (nunca um apoiador de Trump) pelo presidente, que se refere assim aos partidários que se opõem a ele.

Terminada a fase de audiências, parece improvável que a trajetória da investigação tenha mudado significativamente, conforme analisou Michelle Cottle, em artigo no “The New York Times”: os democratas parecem mais convencidos de que o presidente cometeu delitos sujeitos ao impeachment, e os republicanos estão igualmente comprometidos a defendê-lo. Mas Trump já entendeu que, por mais que seus defensores critiquem o processo como um exercício partidário para removê-lo do cargo, o efeito da investigação é desgastante e prejudicial à sua imagem.

Por isso, o presidente conta com uma tropa em ação disposta a encurtar a sua duração no Senado, controlado pelos republicanos.

Como se a pressa fosse capaz de atenuar a contenção de danos.

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